IN COLORS PROJECT ED#4 SKIN
A pele é superfície e território – o primeiro gesto escultórico da vida. É onde a luz se detém, o mundo se imprime e o desejo se manifesta; onde o tempo, a pertença e a fragilidade adquirem forma. Sensível e permeável, constitui um lugar de intimidade e de inscrição social, cultural e afectiva.
Nesta quarta edição do IN COLORS PROJECT, a pele expande-se para além da sua condição anatómica, afirmando-se como matéria, memória e linguagem.
As obras seleccionadas prolongam-na no tecido, na água, na terra, na pedra, no fumo, na sombra, no reflexo e no vestígio. SKIN é, por isso, um convite ao espanto e ao desassombro: a fotografia a afirmar a liberdade para tactear o corpo e reconhecer, nas suas extensões e metamorfoses, uma presença simultaneamente poética e política. Cada obra constitui uma segunda pele: superfície onde o pensamento adquire forma, a provocação cria o gesto e a beleza se torna experiência.
A curadoria estrutura-se em torno da hipótese de que a imagem fotográfica constitui um dispositivo de reconfiguração do sensível, da análise e interpretação do real, transfigurado e apropriado em realidades autónomas e individuais, interrogando-nos sobre a pele enquanto fronteira, superfície de inscrição e lugar de relação, onde se negoceiam a intimidade, a identidade e a liberdade nas sociedades contemporâneas.
Curadoria de Sandra Maria Teixeira
IN COLORS PROJECT – uma iniciativa sem fronteiras da Lumicroma – reclama a importância da fotografia como registo sociocultural e intervenção artística. Pela convergência de experiências de reflexão sobre o mundo actual e através da criação fotográfica, propõe traçar, anualmente, a grande imagem do tempo em que vivemos.
Antes do espetáculo
Breslávia, Polónia, 2015
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
Este é o Rafał, que em breve se tornará Nikita, a Deusa do Amor. Nikita é uma drag queen de Wrocław.Este é Rafał, que em breve se transformará em Nikita, a Deusa do Amor. Nikita é uma drag queen de Wrocław. Estes são alguns momentos dessa transformação. Aqui estão alguns momentos da transformação.
Antes do espetáculo
Breslávia, Polónia, 2015
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
Trabalhar em equipa
Indonésia, 2022
Dikye Ariani | Indonésia
Um grupo de pescadores a pescar de manhã.
Trabalhar em equipa
Indonésia, 2022
Dikye Ariani | Indonésia
Secagem da pele
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Fileiras de peixes estão pendurados a secar, com as escamas a brilhar e a endurecer, formando superfícies padronizadas. O sal e o sol atuam como conservantes, transformando a carne numa textura preservada. As grelhas contêm mais do que apenas alimento: guardam vestígios de mãos, do tempo e de rituais — a superfície como pele, o trabalho como memória gravada na economia da costa.
Secagem da pele
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Ritual das Cinzas e do Sopro
Calcutá, Índia, 2023
Anindya Phani | Índia
Num ritual de fé, o corpo é exposto ao fumo como um ato de purificação espiritual. A pele ostenta as marcas da devoção — texturada, marcada pelo tempo e vulnerável —, enquanto o fumo que se eleva esbate a fronteira entre o físico e o invisível.
Aqui, a purificação não é suave, mas intensa, sendo que a crença transforma o desconforto em transcendência. O corpo torna-se um receptáculo e a pele uma superfície através da qual a fé é expressa e libertada.
Esta imagem capta o momento em que o corpo material começa a dissolver-se em algo que vai além de si mesmo.
Ritual das Cinzas e do Sopro
Calcutá, Índia, 2023
Anindya Phani | Índia
Dores Silenciosas
Purulia, Índia, 2025
Barun Rajgaria | Índia
Uma criança pequena espreita pela entrada escura de uma frágil casa de barro, com um olhar que transmite inocência misturada com adversidade. A luz fraca e o ambiente degradado refletem a pobreza, a solidão e as dificuldades não reveladas da infância em comunidades marginalizadas, enquanto o seu olhar pede silenciosamente esperança e um futuro melhor.
Dores Silenciosas
Purulia, Índia, 2025
Barun Rajgaria | Índia
A memória das mãos enrugadas
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Duas mãos entrelaçam-se numa quietude serena, a pele formando uma topografia de rugas, veias e calosidades. Cada prega arquiva o trabalho, a ternura e o tempo; o entrelaçar protege e, simultaneamente, revela. Aqui, a pele é história — a superfície como registo, o toque como testemunho — onde a memória pessoal e a experiência incorporada se guardam na palma da mão.
A memória das mãos enrugadas
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
O que não vemos #3
Bhopal, Madhya Pradesh, Índia, 2025
Sandeep Biswas | Índia
Esta imagem mostra um trabalhador numa fábrica de argila a misturar argila com os pés. Os pés cobertos de lama, marcados pelo trabalho e pela repetição, não estão apenas sujos — fazem parte do seu meio de subsistência. À medida que a argila seca, forma-se uma camada endurecida sobre a pele, fazendo com que o trabalhador pareça quase tão escultural quanto os objetos moldados a partir da própria argila.
Com o passar do tempo, a argila torna-se uma segunda pele — uma identidade moldada pelo trabalho, pelo material e pela sobrevivência.
O que não vemos #3
Bhopal, Madhya Pradesh, Índia, 2025
Sandeep Biswas | Índia
Sem pele
Budapeste, Hungria, 2021
Renata Icsu | Hungria
A imagem assenta na tensão entre a beleza exterior e a realidade interior. A pele não é apenas uma camada protetora, mas sim a fronteira do mundo visível, sob a qual se encontra uma estrutura frágil, mas estável - os ossos e a estrutura interna.
Sem pele
Budapeste, Hungria, 2021
Renata Icsu | Hungria
Trilho arenoso das marés
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
As pegadas marcam-se na areia ondulada, cada sulco uma impressão epidérmica momentânea. A luz e a maré suavizam e acentuam estas marcas, transformando a passagem numa inscrição. A costa torna-se uma pele viva: efémera, texturada e recetiva — onde os passos humanos gravam brevemente a memória na paisagem antes de o mar os apagar.
Trilho arenoso das marés
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
A Topografia do Tempo
Mianmar, 2020
Aung Chan Thar | Mianmar
A sua pele enrugada é uma paisagem majestosa onde o tempo esculpiu os seus caminhos mais profundos e o mundo deixou a sua marca indelével. Através do gesto íntimo e rítmico das suas mãos, a resistência invisível de toda uma vida assume uma forma concreta e bela. Esta superfície visível transforma-se numa ideia profunda: que cada ruga é um monumento orgulhoso à sobrevivência e à liberdade inabalável.
A Topografia do Tempo
Mianmar, 2020
Aung Chan Thar | Mianmar
Roca Oceanica
Valparaíso, Chile, 2022
Ana Elisa Sotelo | Peru
As mulheres manifestam-se em solidariedade na Roca Oceânica, dias antes do referendo nacional do Chile, onde os cidadãos decidirão se devem substituir ou manter a Constituição redigida durante a ditadura de Augusto Pinochet.
Roca Oceanica
Valparaíso, Chile, 2022
Ana Elisa Sotelo | Peru
Mãos que moldam o divino
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
A argila adere à pele do artesão, enquanto cada dedo imprime devoção na forma. A pele humana molda a matéria terrosa, dando forma à pele divina a partir do solo. Em cada prega e em cada toque, o trabalho transforma-se em oração — pele que molda pele, a memória esculpindo a presença, a divindade nascida do diálogo íntimo entre a mão e a argila.
Mãos que moldam o divino
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Corpo em movimento
Syhlet, Bangladesh, 2025
Muhammad Amdad Hossain | Bangladesh
Captada de baixo para cima, a imagem mostra o corpo de um artista a estender-se pelo enquadramento num momento de tensão e movimento. A fotografia destaca a pele como uma superfície expressiva através da qual se transmitem a disciplina, a força e a identidade cultural. O próprio corpo torna-se um ato de liberdade.
Corpo em movimento
Syhlet, Bangladesh, 2025
Muhammad Amdad Hossain | Bangladesh
Numa noite de inverno
Purulia, Índia, 2020
Barun Rajgaria | Índia
Uma menina de uma tribo está sentada com o seu cão de estimação, enrolado num cobertor para o proteger do frio intenso.
Numa noite de inverno
Purulia, Índia, 2020
Barun Rajgaria | Índia
Auto-retrato
Breslávia, Polónia, 2022
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
Encontrei alguns belos exemplares de cogumelos em forma de taça na floresta. Decidi incorporá-los no meu próprio corpo.
Auto-retrato
Breslávia, Polónia, 2022
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
Ecos do Contacto
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Pés humanos descalços pairam num vazio tenso por cima de um cão de rua que rosna. Trata-se da pele como um território vulnerável e suspenso, que existe entre o betão e a sujidade. É uma liberdade crua e precária, intocada pelo ruído que se ouve lá em baixo, mas definida pela sua distância em relação a ele.
Ecos do Contacto
Daca, Bangladesh, 2026
Md Saiful Islam | Bangladesh
Seja qual for a cor, os amigos continuam a ser amigos
Croácia, 2017
Nuno Pestana Vasconcelos | Portugal
Amigos divertem-se e refrescam-se num quente dia de verão. Um cena tão comum e tão frequente mas que pela estética e pela diferença de tons de pele, penso que resultou muito bem.
Seja qual for a cor, os amigos continuam a ser amigos
Croácia, 2017
Nuno Pestana Vasconcelos | Portugal
Sustendo a superfície
Praga, Chéquia, 2026
Iryna Bilibaeva | Ucrânia
As marcas e as texturas revelam uma resistência interior, algo que já não está oculto. O corpo torna-se um palco visível de luta, carregando os vestígios tanto da dor como da resiliência.
Sustendo a superfície
Praga, Chéquia, 2026
Iryna Bilibaeva | Ucrânia
Um pescador e o seu peixe
Cidade de São Tomé, São Tomé e Príncipe, 2000
Paulo Monteiro | Portugal
Depois do regresso da pesca, este pescador posou para a fotografia, mostrando um dos peixes que pescou.
Um pescador e o seu peixe
Cidade de São Tomé, São Tomé e Príncipe, 2000
Paulo Monteiro | Portugal
Espalhe a felicidade
Indonésia, 2026
Dikye Ariani | Indonésia
Todos os dias podemos realizar pequenos gestos que tenham um efeito positivo nos outros.
Espalhe a felicidade
Indonésia, 2026
Dikye Ariani | Indonésia
As sábias mãos de Baysour
Baysour, Líbano, 2024
João Sousa | Portugal
Detalhe das mãos de um grupo de xeques Druzos do clã Aridi, uma das duas principais famílias de Baysour, Líbano, durante a tradição anual do Liqaa al-Eidao que ocorre antes do nascer do sol, no feriado religioso de Eid Al-Adha. Para os Druzos, este evento não é propriamente uma celebração mas sim uma oportunidade para purificação e renovação da alma.
As sábias mãos de Baysour
Baysour, Líbano, 2024
João Sousa | Portugal
Útero Oceano
Salvador, Bahia, Brasil, 2023
Ana Victória Otoni | Brasil
Sua presença flutua com força e autonomia. Um corpo que gera vida e, ao mesmo tempo, reivindica o direito de existir por inteiro, sem censura, sem domesticação e sem medo. Presente e dona de si, ela se encontra no centro da própria imagem, transformando a maternidade em ato político. Porque todo corpo livre desafia uma estrutura, e toda mulher que habita a própria pele abre caminho para uma nova forma de liberdade.
Útero Oceano
Salvador, Bahia, Brasil, 2023
Ana Victória Otoni | Brasil
Infância
Turquia, 2012
Serkan Çolak | Turquia
Uma criança a brincar nas minas de carvão.
Infância
Turquia, 2012
Serkan Çolak | Turquia
O Antigo e o Novo
Índia, 2024
Nimai | Índia
Uma senhora idosa com o seu neto.
O Antigo e o Novo
Índia, 2024
Nimai | Índia
Para além da perfeição
Satkhira, Bangladesh, 2025
Muhammad Amdad Hossain | Bangladesh
Uma jovem olha diretamente para a câmara com uma confiança inabalável. Os padrões visíveis na sua pele desafiam as noções convencionais de beleza e convidam a uma reflexão mais profunda sobre a identidade própria. A obra explora a forma como a identidade é moldada, não pela conformidade, mas pela coragem de assumir o próprio corpo.
Para além da perfeição
Satkhira, Bangladesh, 2025
Muhammad Amdad Hossain | Bangladesh
Companheiro
Purulia, Índia, 2018
Barun Rajgaria | Índia
Uma menina de uma tribo a partilhar os sentimentos do seu coração com um pássaro colorido.
Companheiro
Purulia, Índia, 2018
Barun Rajgaria | Índia
Lenço
Breslávia, Polónia, 2019
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
A minha filha gosta de fazer máscaras com tecido, lenços e papel. Fica com um aspeto tão invulgar que não consigo evitar pegar na máquina fotográfica.
Lenço
Breslávia, Polónia, 2019
Kornelia Głowacka-Wolf | Polónia
Colapso silencioso
Santa Perpétua de Mogoda, Espanha, 2024
Nerea López Aguirre | Espanha
Esta imagem capta o peso emocional de testemunhar a derrota do outro. Vê-la assim, sentada no chão do chuveiro, representa o momento em que o meu trabalho como cuidadora se transforma num exercício de proteção da sua dignidade.
Através do vidro, a fotografia reflete a minha própria impotência e o respeito absoluto pela sua fragilidade. É o retrato do acompanhamento no colapso: o compromisso de continuar ali, a zelar pela sua intimidade quando ela já não consegue sustentar-se.
Colapso silencioso
Santa Perpétua de Mogoda, Espanha, 2024
Nerea López Aguirre | Espanha
A dor silenciosa de uma criança trabalhadora
Hathazari, Chattogram, Bangladesh, 2017
Ziaul Huque | Bangladesh
Nos exigentes campos de produção de tijolos do Bangladesh, este retrato reflete mais do que o trabalho e as dificuldades — revela a força silenciosa do espírito humano. Através da pele coberta de pó e dos olhos firmes, a imagem explora «O Território da Liberdade» como um espaço de dignidade, resiliência e coragem interior que perdura para além da luta física.
A dor silenciosa de uma criança trabalhadora
Hathazari, Chattogram, Bangladesh, 2017
Ziaul Huque | Bangladesh
A pele do mundo em mim
Braga, Portugal, 2026
Carlos Teixeira | Portugal
É na pele do mundo, num gesto primitivo, que a matéria se torna sentido e finge ser destino - e não sei se quero largar.
A pele do mundo em mim
Braga, Portugal, 2026
Carlos Teixeira | Portugal
Cuidar e Partilhar
Purulia, Índia, 2024
Barun Rajgaria | Índia
Uma criança pobre e faminta partilha a sua comida com o seu animal de estimação antes de a comer ela própria.
Cuidar e Partilhar
Purulia, Índia, 2024
Barun Rajgaria | Índia
Ponto de equilíbrio
Kiev, Ucrânia, 2020
Iryna Bilibaeva | Ucrânia
A pele, moldada pelo contacto com o mundo, é a parte mais resistente do corpo, moldada pela pressão constante e pela recuperação, endurecida ao longo do tempo para suportar o peso das nossas escolhas, onde até o mais pequeno ponto suporta todo o peso do ser.
Ponto de equilíbrio
Kiev, Ucrânia, 2020
Iryna Bilibaeva | Ucrânia
TSM#3
Lisboa, Portugal, 2025
Tiago Saint-Maurice | Portugal
Abstração geométrica a partir de um enquadramento close-up. O alto contraste isola as linhas diagonais criadas pelo relevo da estrutura. O foco está na textura e na repetição rítmica das formas. Um estudo sobre a volumetria e a ondulação do corpo.
TSM#3
Lisboa, Portugal, 2025
Tiago Saint-Maurice | Portugal
Banho nas águas do Atlântico
Cidade de São Tomé, São Tomé e Príncipe, 2000
Paulo Monteiro | Portugal
A passear junto ao mar, na cidade de São Tomé, em São Tomé e Príncipe, deparei com este grupo de jovens que se banhava nas águas do Atlântico.
Banho nas águas do Atlântico
Cidade de São Tomé, São Tomé e Príncipe, 2000
Paulo Monteiro | Portugal
O corpo que nutre
Salvador, Bahia, Brasil, 2023
Ana Victória Otoni | Brasil
Amamentar é um gesto político: é nutrir para além do corpo, fortalecendo o vínculo entre mãe e filho. Registrar esse ato incentiva uma revolução pela segurança alimentar, pela construção de redes de apoio e pela quebra do estigma de que o seio é apenas uma parte sexualizada do corpo. Por isso, falar de amamentação é falar de resistência. Em um corpo tantas vezes controlado e julgado, essa escolha afirma o direito de alimentar, de ser amparada e de ocupar a si mesma por inteiro.
O corpo que nutre
Salvador, Bahia, Brasil, 2023
Ana Victória Otoni | Brasil
A mulher no fim do mundo
Puerto Natales, Chile, 2022
Ana Elisa Sotelo | Peru
Uma mulher está deitada junto ao rio, perto do «fim do mundo», em Puerto Natales, no Chile.
A mulher no fim do mundo
Puerto Natales, Chile, 2022
Ana Elisa Sotelo | Peru
Rugas
Budapeste, Hungria, 2019
Renata Icsu | Hungria
As dobras e vincos na fotografia demonstram como a imagem do nosso rosto que se apresenta ao mundo exterior fica distorcida quando tensões internas ou pressões externas alteram a superfície. As camadas da pele registam a passagem do tempo, as expressões faciais, os traumas e as experiências vividas.
Rugas
Budapeste, Hungria, 2019
Renata Icsu | Hungria